Color bloking: os últimos tons do inverno


As passarelas de moda internacionais revelaram peças repletas de psicodelia e ousadia, desde os suéteres verde-acastanhados aos vestidos de penas de néon da Gucci. Admito que duvidei se a tendência pegaria no dia a dia. A mistura de cores fortes e texturas estranhas não era exatamente o que eu pretendia aderir para a vida real, mas cheguei à conclusão de que estava enganada…

Espectro de luz

Sandalia Arezzo, vestido Le Lis Blanc e blusa Colcci. Foto: Dari Luz

Tons neon e outras cores de peso estão tomando força. Tenho filhas adolescentes e com elas aprendo a olhar para algumas tendências que, normalmente, passariam despercebidas. Através das meninas foi que dei conta que Kendall Jenner, uma das irmãs Kardashian, combinou um top verde com make do mesmo tom, e a modelo Bella Hadid compensou um colete fluorescente usando branco no resto do look.

Outra moda que entra ano, sai ano, vai e volta, é o color bloking, que destaco na coluna desta semana. Ela é nada mais, nada menos que uma combinação de cores vibrantes usadas num mesmo look, mas que no final convivem em harmonia. Para entender melhor a ideia, pense na composição de Mondrian, nas suas obras abstratas em tons de vermelho, amarelo e azul, na qual a pintura resulta unicamente em linhas e blocos de cores bem equilibradas. Agora atualize este colorido para as mil possibilidades que a indústria têxtil pode oferecer e eis um look color blocking que, inclusive, pode ser tom sobre tom na mesma cor ou de diferentes tonalidades. O que parece ser um estilo vindo dos anos 1960 foi rapidamente adotado nas ruas, depois de ser revivido nas passarelas.

Protocolo fashion

A monarca britânica Elizabeth II foi quem impulsionou a criação da hashtag #NeonAt90 e isso está nas páginas de um livro dedicado ao closet mais colorido da realeza. Com fotografias que vão desde a década de 1950 até hoje, e com cores brilhantes que passeiam pelos rosados, que a rainha usava na infância, até o vestido verde neon que incitou a hashtag badalada. Our Rainbow Queen, é uma leitura obrigatória para fãs da rainha e de moda. O livro faz uma viagem fotográfica através das dez décadas do inconfundível estilo color blocking de Elizabeth. As fotografias, que abrangem as cores do arco-íris e um século de estilo, aparecem em legendas e comentários do jornalista e radiodifusor Sali Hughes, que dá contexto fascinante para cada imagem. Os leitores aprenderão como a queen usou a cor e a moda de maneiras estratégicas e discretamente políticas, como o azul da bandeira da união européia para uma reunião pós-Brexit. Ao longo de décadas o coroado closet tornou-se tão icônico, quanto a própria mulher.

Nos primeiros anos ela foi ajudada por dois costureiros em particular: Norman Hartnell e Hardy Amies. Hartnell criou o vestido de noiva e o traje da coroação. Amies, entretanto, tornou-se o conselheiro de estilo do dia-a-dia. Hoje a a rainha tem uma coleção de “marcas registradas” de estilo próprio, instantaneamente reconhecíveis e verdadeiros códigos de moda: lenços na cabeça, cores vivas e brilhantes, muitas vezes combinadas com luvas brancas e pérolas – e sempre com um chapéu perfeitamente coordenado.

O que descobri sobre o closet da rainha

  • l Ela usou calças uma vez na vida, durante a Royal Tour do Canadá em 1970, quando um jovem alfaiate fez um terno de seda matte, em um esforço para atualizar seu visual.
  • A rainha tem um guarda-chuva enfeitado combinando com o look do dia.
  • Tem uma grife de bolsa de mão preferida e mais de 200 modelos Launer, uma marca britânica cujos designs custam mais de 1 mil dólares. De acordo com o The Telegraph, suas preferidas são o Royale e Traviata, graças às suas alças mais longas, que facilitam o aperto de mão.
  • O chapéu dela não pode ser muito largo. A chapeleira favorita da rainha, Rachel Trevor-Morgan, recebeu instruções para fazer chapéus que não obscurecem seu rosto e que não fossem muito altos, caso contrário, poderiam ficar presos quando ela sai do carro.
  • Só usa lenços de seda da icônica Hermés.
  • Bainhas dos vestidos sempre abaixo dos joelhos, porque Elizabeth não quer ser pega de surpresa.
  • Fã da Gucci (eu também sou!), uma fashionista nata, experimentou várias tendências de moda da marca, inclusive color bloking e mocassins.
  • Compareceu ao casamento do seu neto, em 2018, vestindo um casaco verde-limão e um vestido do estilista inglês Stewart Parvin.
  • Para finalizar, e talvez decepcionar as fashionistas que estão lendo a coluna, a rainha não é exatamente uma fã das cores berrantes: os looks com cores forte são, na verdade, um protocolo de segurarança adotado para ela nunca, jamais, ser mais uma na multidão, e assim chamar a atenção da sua guarda, esteja ela onde estiver.

Pós-treino

Sandália Arezzo, calça e acessórios Strass e casaco Colcci. Foto: Dari Luz

Tenho visto muitas mulheres saindo para um brunch ou sunset, pós-treino, usando seus looks de academia. Isso tornou-se não só um sinal de saúde mas uma opção de roupa confortável e estilosa, bem diferente da antiga ideia das marcas esportivas padronizadas. O esporte-chique existe desde os anos 1990, mas até 2010 ninguém o considerou fashion. Roupas de academia eram usadas apenas para malhar e só depois que o mood foi para as passarelas de marcas consagradas, e para a vida real, novas marcas surgiram e as antigas passaram a ganhar mercado. A linha sportswear não está mais rotulada apenas para os rappers e atletas: o esporte hoje é moda.

As mídias sociais tiveram uma tremenda influência no crescimento do movimento activewear. O Instagram permitiu que blogueiros e celebridades compartilhassem seu estilo de vida saudável e o que eles vestissem desse uma audiência massiva. Mais uma vez Kendall Jenner e as irmãs Bella e Gigi Hadid ditaram tendências no mercado de roupas. As Spice Girls, em 1996, na estreia do vídeo do single Wannabe, usaram looks Adidas e top de algodão com performance acrobática e muita cor neon já dando um trend alert do que estava por vir.

Não é por acaso que algumas marcas históricas, que foram ofuscadas desde o início dos anos 2000, estão passando por um segundo renascimento e voltaram a competir com empresas multinacionais de esportes como Nike e Adidas. As marcas de luxo estão tomando emprestada a inspiração de designers de roupas esportivas para coleções de alta-costura e tudo tem dado muito certo. O sportswear reinterpretado de forma luxuosa é uma maneira possível de se fazer moda e se há o nome de Gucci, Versace, Dior ou Alexander Wang por trás, torna-se uma garantia de sucesso. A revolução do chique esportivo começou quando as três peças básicas de roupas (camisetas, tênis e legging) foram emancipadas de sua função puramente utilitária para serem realocadas para roupas casuais e glamourosas.

Sapato aberto no inverno

Vestido Carmen Steffens, sandália Carmen Steffens, bolsa, blusa e cinto Colcci. Foto: Dari Luz

Usar sapatos abertos no inverno é controverso, não acha? Mas é uma regra de moda que deve ser quebrada e prestada atenção. O que acontece quando a roupa perfeita só combina com sandálias abertas e estamos na estação mais fria do ano? Segundo a Vogue, o veredicto sobre sapatos abertos no inverno depende da situação: se você é um fashionista ou está indo para a Fashion Week fazendo seu trajeto de carro, vá em frente. A chave para esse visual dar certo é fazer com que a combinação pareça intencional, caso contrário, dará a impressão que você realmente esqueceu que era a noite mais fria do ano.

Outro dia mesmo usei sandálias abertas com meia calça e o look super foi aprovado. Aliás, meias são uma boa alternativa de sucesso neste caso. Kate Moss, o último dos grandes ícones do século XX, ainda usa meias pretas; as garotas que amadureceram nos anos 2000, não. Lembro novamente das minhas filhas, não tem jeito delas usarem um exemplar de meias calças. Quando o modelo é opaco aparece nas passarelas a cada temporada ou a três, muitas vezes em homenagem aos anos 1990, com sandálias com tira no tornozelo e vestidos deslizantes.

Ah, e vale lembrar: a atriz Sienna Miller já foi flagrada em Nova York, em um dia frio, com saltos altos abertos, enquanto Kate Hudson usava peep-toes para climas semelhantes. Anna Wintour inventou as pernas nuas como um movimento de poder: a semana de moda de Nova York, realizada em fevereiro, às vezes é de -10ºC e Wintour abandonou as meias pretas e começou a chegar aos desfiles com as pernas nuas e com calçados indefectíveis de Manolo Blahnik. Se você realmente quer usar sapatos com os dedos de fora no inverno, vá em frente, eu acho cool!1 of 3  

Sandalia Carmen Steffens, saia AP 03, blusa e blazer Super Suite Seventy Seven
Sandalia Arezzo, vestido Printing e blazer NXTLVL
Saia Iorane, sandalias Carmen Steffens e blusa Tida

Participaram deste editorial

  • Produção executiva, produção, styling, pesquisa de moda: Lise Crippa
  • Modelo: Dora Marafon/DN Models
  • Fotos e tratamento de fotos: Dari Luz
  • Produção de cena: Larissa Maldaner
  • Beleza: Larissa Maldaner
  • Lojas e marcas participantes: AP 03, Arezzo, Carmen Steffens, Colcci, Eva, Iorane, Iódice, Le Lis Blanc, NXTLVL, Printing, Super Suíte Seventy Seven, Strass Acessórios e Roupas, Tida.

Sobre Lise Crippa

Sou formada em Jornalismo, pós-graduada em Marketing e Moda. Atuo em assessoria de comunicação e jornalismo de Moda. O universo Fashion faz parte da minha vida e do meu trabalho.