Eu entrevistei: filha de catarinense, jornalista italiana Paola Jacobbi fala da convivência com grandes nomes da arte, cinema e moda

Quando entrei no restaurante Ceresio 7, em Milão, me chamou a atenção o burburinho em torno de Cindy Crawford, uma das primeiras tops mundiais a ser denominada “übermodel“. Ela recém tinha batido um papo amistoso com a minha entrevistada de hoje, Paola Jacobbi. Com amigos em comum, logo estávamos sentados juntos, menos a modelo, que estava a algumas mesas de nós.

Eu e Paola em Milão, ano passado

Paola e eu identificamos imediatamente muitas afinidades. Italiana, com mãe brasileira — ela é filha de Daisy Benvenutti —, Paola é jornalista e tem uma forte ligação com Santa Catarina — ela é prima do saudoso colunista Moacir Benvenutti (que chegou a morar em Milão com a família de Paola), e a mãe nasceu em Jaraguá do Sul.

Desde aquela noite de novembro, no auge da semana de moda, nós mantivemos conversas frequentes. Neste começo de ano, como faz anualmente, Paola e o marido Gianmaria vieram a Santa Catarina para rever os parentes. Em meio às férias, batemos um papo sobre moda, personalidades, carreira. Com a modéstia habitual àqueles que não precisam se autopromover, a jornalista, que atua na Vanity Fair italiana, fala com naturalidade sobre sua convivência com os grandes nomes da arte, cultura e moda mundial.

Por Lise Crippa -26 de Janeiro de 2019

Paola Jacobbi
Paola Jacobbi (Foto: Diorgenes Pandini)

No currículo

Paola é editora sênior da Vanity Fair italiana, revista americana que aborda cultura pop, moda e política pelo mundo, inclusive com edição aqui no Brasil. Tem formação em Ciências Politicas em Milão. Iniciou no jornalismo com 18 anos, quando fez estágio na Bloch Editora, no Brasil. Um ano, depois trabalhou na redação de Paris da mesma revista. Em 1984, já estava contratada numa publicação italiana de moda, música e cultura para jovens meninas. Em 1995, escrevia para a Panorama, uma espécie de Veja italiana. Em 2003, entrou na Vanity logo que a revista se estabeleceu na Itália. Atualmente, ainda escreve para a Vogue russa, na editoria de moda, e já colaborou para a Vanity Fair Espanha.

Ligações com o Brasil, SC e Florianópolis

“Minha mãe, Daisy, é brasileira, nascida em Jaraguá do Sul. Formou-se em Ciências Econômicas em Curitiba. Foi a primeira mulher formada na Federal do Paraná, por isso ganhou um prêmio em 2016. A história dela é muito mais interessante do que a minha. Enfim, ela foi ser atriz de rádio e teatro em São Paulo, onde conheceu meu pai, escritor, crítico, diretor de teatro italiano, que morou muitos anos no Brasil. Quando ela estava grávida de mim, de cinco meses, resolveram voltar à Itália. Na época eles moravam em Porto Alegre. Então eu fui concebida em Porto Alegre e nasci em Roma, onde residiam meus avós paternos. Quando eu tinha três ou quatro anos, mudamos para Milão”.

A mãe inspirou-a também a seguir a carreira na área de comunicação. Na Itália, Daisy trabalhou na Revista Manchete como correspondente e também foi diretora de redação da Revista Desfile Itália, em que tinha uma coluna abordando moda e sociedade em Milão.

Infância e adolescência

“Eu sempre vivi na Itália. Passei algumas férias em SC, visitando a família, principalmente meu primo Moacir Benvenutti, colunista social do Diário Catarinense, que foi para mim um grande amigo. Sempre representou a alma de Floripa e de Santa Catarina. Me faz falta todo dia”.

Entrevistas com celebridades mundiais

“Já entrevistei grandes nomes do cenário mundial desde minha estreia na carreira. Desde os escritores Jorge Amado, há muitos anos, no Rio, quando eu ainda era uma garota, Isabel Allende, Mario Vargas Llosa, a astros como George Clooney, Sharon Stone, Richard Gere, Angelina Jolie, Brad Pitt, Clint Eastwood, Madonna, Lady Gaga, Scarlet Johansson, Dakota Johnson, Eva Green, Rachel Weisz, Alfonso Cuarón, Nacho Figueiras, Edgar Ramirez, Rodrigo Santoro. Além de Leonardo DiCaprio, Kitty Spencer (sobrinha de Lady D), Julia Roberts, Jodie Foster, Martin Scorsese, Sofia Coppola. Mas também entrevistei muitas personalidades da moda, como Giorgio Armani, Donatella Versace, Alber Elbaz, Ottavio Missoni, Gisele Bündchen. Fiz a primeira entrevista com Lea T, conversei com o jogador Alexandre Pato quando ele namorava com a filha de Silvio Berlusconi. Falei com todos os 007 (Sean Connery, Roger Moore, Georges Lazenby, Pierce Brosnan e Daniel Craig) muitos outros atores, inclusive a rainha das blogueiras Chiara Ferragni“.

Blogueiras e o jornalismo

“Elas tomaram lugar das páginas de anúncios que eram fonte de dinheiro para as editoras. Uma blogueira não pode ser jornalista porque é simplesmente uma garota propaganda 2.0, é comércio, não é jornalismo. Nada de mal, mas são temas, e business, muito diferentes”.

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Mercado editorial e redes sociais

“A situação das editoras é muito crítica no mundo inteiro. O mercado editorial italiano é como todos os outros, alguns títulos funcionam, outros menos, mas ninguém cresce. Não tem novos projetos, o dinheiro é sempre menor. Sou muito interessada nas redes sociais, mas acho que precisam evoluir. Não basta uma pose narcisista para substituir uma revista de moda, não basta uma frase bacana para substituir a crítica de um filme ou um argumento político. Redes sociais são um atalho para preguiçosos, seja para quem escreve, seja para quem lê, mas podem ser uma plataforma para um ótimo jornalismo também. Depende muito dos editores que, por enquanto, não tiveram grande visão sobre o futuro. Como é possível que os discos acabaram, mas a música continua sendo um business? Que as livrarias fechem, mas os livros se vendem na Amazon? Que os cinemas fechem, mas os filmes vivem e prosperam na Netflix? Cadê a Netflix das revistas? (Existe, é a Texture nos EUA, mas ninguém acreditou bastante na ideia, pelo menos até hoje). A crise é mundial. A questão é qual será o futuro, se ninguém fizer nada? O futuro serão as revistas em forma de aplicativos, o problema é que tem muita informação de baixo nível e gratuita. Eu quero um conteúdo bom e quero pagar por este conteúdo. Eu quero ler uma publicação com algo interessante. A Netflix está produzindo filmes como Roma que, se não fosse a plataforma, menos pessoas teriam visto”.

David Bowie e visões sobre o futuro

“Falei com ele em 1995. Começamos abordando sobre os anos 2000 e lembro que gostei muito daquela entrevista, porque ele me comentou que já havia se programado para passar o final de 1999, 2000 na Nova Zelândia, pois lá o ano começava antes. Ele estava com pressa e estava muito interessado nas tecnologias. A internet estava começando e ele já estava super interessado. Bowie tinha uma visão muito científica das coisas, tinha uma visão futurista e de como a vida iria mudar. A matéria era sobre como seria o próximo milênio. Uma parte era com ele e a outra com a cineasta Kathryn Bigilow, que logo depois se tornaria a primeira mulher a ganhar um Oscar de melhor direção por The Hurt Locker, em 2010″.

Peculiaridades de celebridades

“Nunca vou esquecer de um dia em Lisboa com Marcello Mastroianni; uma tarde na casa de Kevin Costner em Los Angeles; um almoço com Sharon Stone em Bora Bora; um dia fotografando a Isabel Allende na casa dela em São Francisco (Califórnia); uma viagem de avião de Atlanta para Nova York com Janet Jackson. Mas talvez a minha preferida em absoluto seja a Olivia De Havilland, única sobrevivente do elenco de E o Vento Levou…, que entrevistei na casa dela em Paris, em 2009″.

Paola e Isabel Allende

Universo da moda

“Adoro moda. O mais divertido, irônico, inteligente de todos os entrevistados foi Giancarlo Giammetti, sócio de Valentino. Uma vida de glamour, um humor bem “sharp” [ácido]. Foram as flores mais chiques que recebi no dia seguinte a uma entrevista”.

Incursões literárias

“Eu escrevi um romance e três outros livros sobre moda. O livro sobre sapatos foi ideia de uma amiga que trabalhava na editora de livros e que sempre dizia que gostaria que eu escrevesse um livro para ela. A gente começou a se encontrar numa cafeteira em Milão, às quintas-feiras de manhã, ao lado de uma feirinha famosa na cidade porque tem uma banca que vende sapatos de marca da temporada passada: Prada, Tods, Versace, Dolce e Gabbana….E ali, na frente da banca, tivemos a ideia de um livro sobre sapatos. O livro foi um sucesso (era o momento de ouro da Sex & the City, sapatos e mulheres eram assunto do dia) foi traduzido em várias línguas (inclusive no Brasil). Aí resolvi fazer uma trilogia das obsessões femininas: sapatos, bolsas, joias. Já o romance é uma sátira social sobre o mundo das celebridades e do charity. Se passa num país de terceiro mundo, Centro-América, país que não existe, ninguém conhece. Fala de um local que tem um terremoto e lá tem uma celebridade e o local torna-se famoso e ganha a atenção da mídia e do mundo por causa do terremoto. Eu me inspirei um pouco no que aconteceu em 2004, quando ocorreu um tsunami no Sul da Ásia. Se não tivessem ocidentais, ninguém estava nem aí. A modelo checa Petra Nemcova ficou famosa porque sobreviveu a este tsunami. No futuro, gostaria de escrever algo sobre Brasil e Itália, ainda não sei como!”

Referências do Brasil aos italianos em moda e entretenimento

“Os italianos veem os brasileiros como um povo alegre. Sol, futebol, Carnaval, o rótulo clássico. Só quem viaja e conhece, entende e aprecia a complexidade antropológica e cultural do Brasil. As referências em moda são poucas, ficam mais no campo de nomes de algumas top models. Entre os que trabalham na moda, Osklen é uma marca conhecida e as Havaianas são veneradas. O Brasil é muito clichê e as informações de moda, cinema e entretenimento chegam pouco para nós na Itália. Gisele Bünchen é muito famosa, mas quase mais americana que brasileira. Apareceu nos jogos olímpicos, todo mundo sabe que é brasileira, mas é a única celebridade da atualidade na área da moda que a Itália conhece. Sonia Braga é lembrada quando se fala em cinema brasileiro, assim como Sophia Loren no cinema italiano”.

Sobre cinema brasileiro

“Eu vi dois filmes brasileiros ótimos! (ela recorre ao marido Gianmaria, para ajudá-la a lembrar os nomes — Que Horas Ela Volta e Casagrande). Aquarius também foi um grande filme. Entrevistei a Sonia Braga. Já sobre Que horas Ela Volta, não consegui emplacar uma entrevista. Infelizmente, ninguém conhecia a Regina Casé. E um viva à Netflix! Pois eu não teria visto a série O Mecanismo, sobre a Lava-Jato.

Expectativa quanto às celebridades

“Acontece decepção, acontece surpresa. Você encontra a celebridade em épocas diferentes. Você encontra numa época e depois em outra, dependendo do momento da vida deles. Com o Kevin Costner, por exemplo, entrevistei ele no começo da carreira e num momento que ele era muito famoso, num momento de quase arrogância. Depois entrevistei num momento que ele estava em grande crise e depois foi mais na idade atual, mais tranquilo. Depende do momento, do que estão promovendo. É claro que se trata da promoção de um filme que estão muito apaixonados, que deram o máximo, um filme que pode ganhar prêmios, eles são mais generosos, mas tem alguns que nunca são generosos… Os melhores entrevistados são os mais velhos, porque têm muita história para contar e não precisam mais provar nada para ninguém”.

Favoritos para o Oscar

Aposto em Nasce uma Estrela, Bohemian Rhapsody, Green Book. Eu apostaria no Green Book, mas o filme está tendo muita polêmica em torno dele, mas depende muito como de como a equipe que produziu o filme vai conduzir a narrativa. Tecnicamente, Green Book, se souber jogar bem as suas cartas, será como o The Millionaire. O ano que o filme ganhou ninguém esperava. O Vigo Mortensen, um dos protagonistas de Green Book, me contou que da outra vez que ele foi indicado ao Oscar, não fez muita campanha e o pessoal reclamou para ele”.

Morar no Brasil

“Gostaria muito de morar no Brasil! Um país jovem, com grande energia e potencial enorme, um país onde se fala uma língua maravilhosa, que tem uma tradição cultural própria, única. Quantas coisas podem ainda ser feitas no Brasil! Gosto muito de Florianópolis, gostaria de passar muito mais tempo aqui. A cidade tem um potencial enorme! Outro dia, num sábado, com tempo nublado, queríamos ver um filme japonês que ganhou Cannes e fomos ao Paradigma e o cinema estava cheio, 11h da manhã! Se você faz as coisas, tem público. Eu passo pelas livrarias dos shoppings e estão vazias, mas porque não têm eventos. Convidem pessoas para falar de um livro, tocar uma música, uma palestra. Uma das coisas que falta mais aqui em Florianópolis é política cultural. Mas eu amo cada árvore aqui na Capital!”

Sobre Lise Crippa

Sou formada em Jornalismo, pós-graduada em Marketing e Moda. Atuo em assessoria de comunicação e jornalismo de Moda. O universo Fashion faz parte da minha vida e do meu trabalho.