Clássicos da moda com arte e expressão


O que você veste diz muito sobre sua personalidade e crenças. Marcas de todo o mundo estão criando maneiras de aderir a algumas causas e manifestações artísticas e políticas, expondo ideias em peças em que a maioria possa usar e que seja acessível. Sempre existe uma forma de contribuir para o que você acredita, se expressando a sua maneira. Inspirada nestes itens fashion, eu escrevo a coluna desta semana. A grande protagonista é a camiseta branca, ou da cor que preferir, clássica e atemporal, que chegou para ficar. Não conheço nada mais democrático, hoje, na moda.Por Lise Crippa -29 de junho de 2019

Camiseta Simone Michielin e saia Le Iris. Foto Dari Luz

Quando Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da Dior, colocou na passarela – em sua primeira coleção para a grife francesa em 2016 – a camiseta escrita “Devemos todos ser feministas”, ela reacendeu uma chama no mundo da moda. Desde então, presenciamos um movimento feminista, ou com motivação política, pegando carona nas camisetas, na maior parte das vezes como slogan.

As camisetas

Item unissex começou a vida como uma roupa de baixo usada pelos homens. Na Idade Média eram feitas de tecido de algodão ou linho, que faziam uma camada entre o corpo e as roupas usadas por cima. O modelo sofreu várias mudanças significativas no século 19. A nova tecnologia de malharia deu um start para elas serem produzida em massa. A prática de vestir camisetas como roupas esportivas foi rapidamente adotada por homens da classe trabalhadora.

No momento em que os atores de Hollywood começaram a colocar camisetas brancas para sinalizar a rebeldia de seus personagens, o mais mitológico que lembro foi James Dean em Rebel Without Cause (1955) – a camiseta entrou oficialmente no closet do masculino. Os rappers usaram nos anos 1990, assim como estrelas pop e modelos. T-shirts estão na mira da moda desde os anos 1950 e a peça foi reinterpretada por muitos designers desde Yves Saint Laurent e Dior, até Chanel e Lacoste.

Dior perpetuou as saias

Você anda notando que as saias e vestidos chegaram com tudo nos últimos desfiles e coleções? Na coluna deste fim de semana destaquei também as saias, todas num comprimento midi, fazendo dobradinha com o tema principal, as camisetas. Foi no desfile de moda da Dior, em Paris – mas desta vez busquei lá no passado, em 1947 –, que algo diferente ocorreu nas passarelas. Um novo estilo finalmente entrava para a história, com um apelo nostálgico da sociedade do pós-guerra. E a lenda nasceu, o new look entrou para a cronologia da moda.

A marca não queria criar roupas, mas sim vender um sonho dos bons e velhos tempos, quando as mulheres podiam se dar ao luxo de serem extravagantes e, deliberadamente, glamourosas. O new look foi uma redescoberta da prosperidade, decretada depois do período de guerra, dos trajes utilitários e austeridade das roupas. Apresentou uma imagem de feminilidade radical, obtida por saias e vestidos que tinham que estar 40cm acima do chão.

Feministas protestaram

Nem todo mundo ficou empolgado com o glamour exagerado proposto pela Dior. Segundo as feministas, eram ideias regressivas e contrárias às da época: “Nós abominamos vestidos compridos”!, gritaram elas em protesto. Os designers americanos, que adotaram silhuetas modestas e elegantes e cujos negócios floresciam durante a guerra, também ficaram igualmente chocados com Dior. Coco Chanel, a estrela da moda pré-guerra, comentou com zombaria que, “a Dior não veste as mulheres, as cobre!”

Nos anos 1930, mulheres da classe média e alta usavam basicamente os mesmos looksdevido à Grande Depressão. Em contraste, após a Segunda Guerra Mundial, os trajes exclusivos e luxuosos da Dior ofereceram um símbolo da nova e dividida sociedade. No início dos anos 1960, o new look quase desapareceu da coleção da Maison. Sua revitalização veio na década de 1990, no entanto, quando uma onda de jovens estilistas decidiu desconstruir a história da moda e se apropriar dela para o seu tempo. Hoje o “novo olhar” mais uma vez reina: Thom Browne, Miuccia Prada ou J. W. Anderson atualizaram o estilo de Dior.

Feito na hora

O projeto Eu Q Fiz passeia entre mentes criativas e tendências em constante movimento. As peças e estampas adquirem significado, tornam-se únicas quando encontram indivíduos que valorizam a cultura maker e criam seu próprio jeito de pensar a moda. Percebendo isso, a marca catarinense Colcci dá vida a este novo projeto que traz a tecnologia a favor da unicidade. Leva para o ponto de venda uma máquina de estamparia e convida o público a participar do processo criativo, escolhendo sketches ilustrados pela crew de designers da marca ou sugerindo seu próprio desenho ou frase.

Saia, camiseta e blazer Colcci, bolsa customizada Schutz, pulseira Hermês, tênis Drumond customizado pela artista Simone Michelin

Seja qual for a preferência, a t-shirt é produzida na hora. As camisetas adultas são vendidas a R$ 119 e infantil R$ 79. Na compra de três camisetas, as adulto ficam por R$ 99 e infantil R$ 69, sendo que na loja do Beiramar de Floripa, 15% das vendas – até este fim de semana –, serão revertidas para a Casa de Acolhimento Semente Viva que abriga crianças em risco social.

Em oito anos, o Lar já atendeu mais de 80 crianças que tiveram suas histórias transformadas. Funciona 24 horas por dia, 12 meses por ano, sem parar. Por ser uma organização sem fins lucrativos, depende de doações para manter as portas abertas.

A arte de ser feliz

Bolsa customizada na hora por Simone Michielin Chenson, saia e moleton Tida. Foto Dari Luz, especial

– Eu ‘estive’ advogada por um tempo, mas hoje percebo que sempre fui artista plástica – me contou Simone Michielin, dona do Ateliê que leva o seu nome no bairro Santa Mônica, em Florianópolis.

Foi lá que realizamos as fotos da coluna, e a artista customizou uma bolsa com exclusividade. A saída do mercado formal e o reencontro com a arte, após 15 anos de uma bela carreira na advocacia, marcam a trajetória da artista nascida em Pinhalzinho, Oeste de SC.

Desde muito cedo demonstrou um talento nato pelas artes. Eram cadernos e mais cadernos de desenhos e um número sem fim de lápis de cor, tintas e tudo mais que pudesse ser usado para expressar o que, até pouco tempo na sua infância, parecia ser apenas um hobby. Simone já participou de diversas exposições, além de duas mostras Casa Cor SC, Casa & Cia e três exposições em Florença, Itália.

Saindo das telas, participou da Elephant Parade Brasil, com a pintura de três esculturas que ficaram espalhadas pela cidade. Foi convidada a participar da exposição Bonecas Russas Gigantes, pintando duas delas, uma por encomenda da Embaixada Russa para as Olimpíadas do Rio 2016.

A arte de ser feliz 2

Camisa Tig, saia, casaco cinto Renata Ouro

A coluna aborda muita moda com propósito, customização e destaca a mudança profissional de duas mulheres catarinenses.

Natural de Florianópolis, Renata Ouro tem 33 anos e é formada em Administração e pós-graduada em Marketing. Como a maioria das meninas, herdou a paixão pela moda da infância, quando “roubava” os sapatos e batons vermelhos da mãe e os acessórios da avó paterna para brincar. Aos 15 anos, começou a carreira de modelo, que perdurou por 10 anos. Durante a faculdade, se encantou pelos negócios e depois de formada ficou no mundo corporativo por 11 anos.

Foi neste universo que se reconectou com a moda. Renata participava de reuniões importantes, em ambientes extremamente masculinos, e sentia falta de marcas para um público feminino – hoje extremamente exigente e com independência financeira.

– Quando atendi a minha necessidade de me vestir, as clientes foram aparecendo, porque eu estava preenchendo uma lacuna no mercado. E foi aí que a minha marca começou a sair de Florianópolis para São Paulo, Brasília e Rio. Minhas clientes começaram a sentir a autoestima elevada e com seus problemas resolvidos.

Com vendas online e em multimarcas pelo Brasil, todas as peças Renata Ouro são confeccionadas com o olhar bem crítico e detalhista da estilista, que se inspira no lifestyledas próprias clientes e busca referências em grandes grifes internacionais, como Chanel.

Participaram deste editorial:

Produção executiva, produção, styling, pesquisa de moda: Lise Crippa
Modelo: Maria Vitória Giovannini (Ford Models)
Fotos e tratamento de fotos: Dari Luz
Produção de cena: Larissa Maldaner
Beleza: Larissa Maldaner
Agradecimento: Simone Michielin Arte
Marcas e lojas participantes: Chenson, Colcci, Dumond, Hermès, Le Iris, Tida, Tig, Schutz, Paula Torres, Renata Ouro e Simone Michielin

Sobre Lise Crippa

Sou formada em Jornalismo, pós-graduada em Marketing e Moda. Atuo em assessoria de comunicação e jornalismo de Moda. O universo Fashion faz parte da minha vida e do meu trabalho.